Toma a tua cruz e vem pela porta estreita

porta estreita

Texto por Prof. Felipe Aquino

Jesus começou a sua vida pública anunciando o Reino de Deus e chamando o povo à conversão.

“O tempo está realizado e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

Este chamado de Cristo se dirige a cada um de nós.

O homem foi feito para Deus. Para se realizar Nele, plenamente, participando de sua divindade e desfrutando do seu amor. O centro de sua vida, de suas atenções, e de todas as suas atividades deveria ser unicamente Deus. Como dizia São Francisco um convertido perfeito: ”meu Deus e meu Tudo”.

O homem convertido é aquele que voltou-se definitiva e totalmente para Deus, como os santos o fizeram.

O pecado original nos deixou ‘órfãos’ de Deus, e nos colocou no lugar Dele. Passamos a ‘servir’ e a ‘adorar’ a nós mesmos, ao invés de servirmos e adorarmos a Deus.

O nosso processo de conversão consiste, portanto, em retirar o nosso “Eu” do trono do coração, para aí deixarmos reinar Deus. E isto é um processo, que pode durar a vida toda, ou ainda mais. Até após a morte a Igreja ensina que, em uma nova dimensão de vida, poderemos continuar a obra de nossa conversão para Deus, no purgatório.

A conversão é um caminho estreito porque exige ‘morrer’ para si mesmo e para o mundo. Neste aspecto Jesus foi muito claro e não deixou dúvida:

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” ( Mt16,24; Lc 23,27).

Seguir a Jesus implica em morrer para si mesmo, para o egoísmo, para a vaidade, para o próprio orgulho, a fim de estar totalmente disponível para fazer a vontade de Deus. Isto não é fácil. Na verdade, chega a ser quase impossível face à nossa natureza decaída. É preciso a graça de Deus a nos mover nesta dura caminhada. Mas, quando queremos nos converter, a graça de Deus nunca nos falta; porque, antes de mais nada, este é o desejo do Senhor.

“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Tess 4,3), diz São Paulo.

“Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer produzirá muito fruto. Quem ama sua vida a perde e quem perde a sua vida neste mundo, guardá-a para a vida eterna” (Jo 12,24-25).

É preciso estar disposto a ‘perder a vida para ganhá-la’.

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição… Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à Vida” (Mt7,13).

E Jesus concluiu dizendo que ‘são poucos os que o encontram’; ‘Só os violentos [consigo mesmo] arrebatam o Reino’.

Deus fez do sofrimento a matéria prima da salvação, como disse Michel Quoist. Mais do que a própria oração, o sofrimento, aceito com paciência e oferecido a Deus na fé, é o melhor agente da conversão pessoal. Não é a toa que os santos falavam do ‘martírio da paciência’ que nos leva ao céu.

Quando Deus permite que o sofrimento nos atinja, Ele tem para conosco um desígnio de salvação. O sofrimento não é castigo mandado por Deus, mas certamente é correção. A carta aos Hebreus diz que “o Senhor educa a quem ama, e corrige todo filho que o acolhe” (Hb 12,6). E continua:

“É para vossa educação que sofreis. Deus vos trata como filhos… Deus nos educa para o aproveitamento, a fim de nos comunicar a sua santidade” (Hb 12,7).

As ervas daninhas do jardim da nossa alma têm raízes profundas em nós, e é nelas que se apega o nosso Ego, cheio de orgulho, de vaidade, de amor próprio, eivado de paixões, afetos desordenados, apego às coisas materiais, ao dinheiro, às pessoas e a si mesmo, não deixando espaço para Deus reinar em nós, como deve ser. O sofrimento acolhido com ação de graças, na fé, e oferecido a Deus como Jesus o fez, é o remédio propício para matar as raízes profundas das ervas daninhas do nosso Eu. Somente a cruz nos liberta de nós mesmos e nos faz ‘morrer’ a qualquer outro amor e afeição que não seja Deus. Por isso, é preciso saber sofrer; por amor a Deus; para que Ele reine em nós. São Paulo diz que:

“A linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus” (1 Cor 1,18).

porta estreita

Cada vez que suportamos o sofrimento, qualquer que seja ele, vindo da parte dos homens ou de Deus, com paciência e fé, Deus nos cura, salva e liberta. Santa Teresa D’Ávila dizia que: “os mais queridos de Deus são os que mais sofrem”, como Jesus, mas que “Deus não manda um sofrimento sem pagá-lo com algum favor”. São Tiago afirma que “a paciência produz uma obra perfeita” (Tg 1,4) e que é “feliz o homem que suporta a provação” (Tg 1,12).

Quando se abraça as cruzes que Deus manda, elas ficam mais leves, diz Santa Teresa… “Tome a sua cruz, a cada dia, e siga-me” (Lc 9,23), sem se lamentar, sem mau humor, sem revolta na alma, sem repugnância… Este é o caminho da conversão. É um trabalho diário… até a santificação.

Os santos são unânimes em afirmar que não se pode fazer nada melhor para Deus do que “sofrer com paciência todas as amarguras da vida”. São Paulo expressou isto dizendo:

“Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, pelo seu corpo , que é a Igreja” (Col 1,24).

“Nós somos o Corpo de Cristo, a Igreja” (1Cor 12,27), e este seu Corpo também precisa passar pela paixão para entrar na glória, assim como Jesus. Isto vale mais para a nossa conversão do que todos os exercícios espirituais, diz Santo Afonso. É o remédio pelo qual Deus destrói em nós as más inclinações interiores e exteriores, consequência da corrupção do pecado, e nos conduz à perfeita conversão.

Contudo, é preciso ficar claro que este caminho de ‘renúncia a si mesmo’ e de abnegação, não é um caminho de tristeza e frustração, como alguns podem pensar, não. Ao contrário, é um caminho de paz e felicidade, alegria e liberdade. O maior carrasco de cada um de nós é o nosso próprio Eu, cheio de más inclinações e de vontades.

Livrar-se do próprio Eu, colocá-lo no devido lugar, é viver verdadeiramente como homem, segundo a vontade de Deus, e não como um farrapo humano que vive se arrastando pela vida, dominado pelos prazeres e pelas más inclinações.

Esta ascese cristã não quer dizer que nos desprezaremos, ou que enterraremos os nossos talentos; ao contrário, os desenvolveremos ao máximo das suas potencialidades, não porém, para satisfazer o nosso egoísmo, mas para colocá- los mais e melhor a serviço de Deus e dos irmãos.

Originalmente publicado em Cleofas.