Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 2

Purgatório

Penas das almas do purgatório.

A maior pena é a separação de Deus

Por outro lado, sofrem aquelas almas uma pena tão extremada que não haveria língua capaz de explicá-la nem inteligência que pudesse compreender sequer uma centelha dela, se Deus por graça especial não se o mostrasse.

Uma centelha disso é o que Deus por uma graça especial mostrou à minha alma; mas não posso expressá-lo com minha língua. E esta visão que me deu o Senhor do purgatório nunca mais se apagou de minha mente, e os direi dela o que puder, pois só entenderão aqueles aos quais o Senhor se digne abrir o entendimento.

O fundamento de todas as penas é o pecado original e o atual. Deus criou a alma pura, simples e limpa de toda mancha do pecado; e com um certo instinto bem-aventurado fez Ele, do qual o pecado original com que a alma se encontra, a separa; e quando se apega ao pecado atual, então, se afasta mais de Deus a alma; e quanto mais se afasta, tanto mais se torna maliciosa, porque Deus lhe corresponde menos.

E como todas as bondades que podem existir, o são por participação de Deus, o qual corresponde com as criaturas irracionais como Ele quer e tem ordenado, não abandonando-as nunca, e como à alma irracional corresponde Deus mais ou menos, conforme a encontre purificada do impedimento do pecado, por isso, quando encontra Deus uma alma que se aproxima de sua primeira criação pura e limpa, faz que aquele instinto bem-aventurado, se vá descobrindo e crescendo nela tanto, e com tal ímpetos e furor pelo fogo da caridade (a qual lhe dirige para os eu fim último) que pareca à alma uma coisa insuportável encontrar-se impedida para ele; e enquanto mais e melhor o vê assim a alma, tanto mais aumenta nela essa pena.

 

Diferença entre os condenados e as almas purgantes.

Como as almas que estão no purgatório já não têm culpa do pecado, não têm outro impedimento para chegar a Deus que somente aquela pena que o retarda fazendo que seu bem aventurado instinto não alcance esta perfeição.

E vendo então, com certeza, quanto importa o mais mínimo impedimento, que é por necessidade de justiça que se atrasa nelas o cumprimento daquele instinto bem-aventurado, é porque nasce então para as almas aquele fogo extremado tão parecido ao do inferno; mas que é diferente por não haver mais nas almas purgantes nenhuma culpa, a qual é a que perverte a vontade dos condenados do inferno, aos quais Deus não lhes corresponde com a sua bondade, que é porque esses condenados permanecem naquela outra desesperada e pervertida vontade contrária à vontade de Deus. Assim vemos claramente que é a perversa vontade contrária à vontade de Deus que faz a culpa, e que perseverando a vontade má, persevera a culpa.

Pois é por haver saído dessa vida com aquela vontade má, porque a culpa daqueles que estão no inferno não foi redimida e nem pode remir-se: porque já não podem trocar a vontade com a que saíram desta vida, já que naquela passagem a alma se estabiliza no bem ou no mal com a deliberação da vontade em que então se encontra; conforme está escrito: “Ubi te invenero“, isto é, na hora da morte, com a vontade de pecar ou com o descontentamento e arrependimento dos pecados “Ibi te judicabo.”

E para este juízo não há possibilidade de remissão, porque depois da morte a liberdade do livre arbítrio torna-se imutável, pois a vontade torna-se fixa naquilo em que se encontrava no momento da morte.

Aqueles que estão no inferno, por haverem-se encontrado no momento da morte com a vontade de pecar, levaram consigo a culpa infinitamente, e com ela a pena; que não é, entretanto, tanto como a que merecem, ainda que seja necessariamente sem fim.

Mas aqueles outros do purgatório não têm mais que a pena, porque a culpa foi cancelada no momento da morte por eles mesmos, ao sentir-se descontentes por seus pecados e arrependimentos de haver ofendido com eles a Bondade Divina. E assim a pena é finita para eles e vai diminuindo com o tempo, como disse antes.

Oh, que miséria das misérias a nossa, e tanto maior quanto a cegueira humana não a sequer vê!

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

 

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