Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 3

Purgatório

Deus mostra sua bondade até com os próprios condenados.

A pena dos condenados não é, contudo, infinita em quantidade, porque a doce bondade de Deus resplandece com o raio de sua misericórdia ainda até no inferno.

O homem morto em pecado mortal merece uma pena infinita em um tempo infinito; mas a misericórdia de Deus fez só o tempo infinito e a pena finita em quantidade: posto que justamente poderia dar-lhes pena muito maior do que a que é dada.

Oh, que perigo é o pecado quando se comete com malícia! Porque o homem não se arrepende dele senão com muita dificuldade, e não arrependendo-se, permanece na culpa; a qual persevera nela tanto quanto o  homem permanece nessa vontade do pecado cometido e na de cometê-lo.

 

Purificadas do pecado, as almas purgantes sofrem gozosamente as penas.

Por outro lado, as almas do purgatório têm sua vontade totalmente conforme a vontade de Deus; e por isso Deus corresponde com a sua bondade; e assim elas estão contentes no que a vontade se refere; e purificadas do pecado original e do atual no que se refere à culpa. Ficam assim as almas purificadas como quanto as criou Deus; pois por haver saído estas almas desta vida, descontentes e confessados de todos os pecados cometidos e com a vontade de não voltar a cometê-los, Deus perdoa imediatamente a sua culpa e não lhes fica mais, então, do que aquela cobertura ou escória do pecado, da qual se vão purificando no fogo com a pena.

E assim purificadas de toda a culpa e unidas com Deus pela vontade, veem a Deus claramente, segundo o grau que a Ele alcança seu conhecimento; vendo também quanto vale e importa este gozo seu de Deus, e que é o fim para a qual as almas foram criadas.

 

Com quanta violência de amor desejam as almas do purgatório alcançar o gozo de Deus.

Exemplo do pão e do faminto.

As almas do purgatório encontram uma conformidade tão unitiva com a de Deus, a qual tanto as atrai para si (pelo instinto natural de Deus com a alma), que não se pode dar-se uma figura ou exemplo que sejam suficientes para esclarecer uma coisa como esta, tal como a mente a sente e compreende em efeito pelo sentimento interior. De todos os modos, darei exemplo que se oferece ao entendimento.

Se não houvesse em todo o mundo mais que um só pão, o qual servisse para matar a fome de todas as criaturas, e que por natureza, quanto está são, instinto de comer, e não comendo-o não pudesse ficar doente nem morrer por ele, aquela fome sempre cresceria, porque o instinto de comer não lhe faltaria nunca.

Mas se o homem soubesse, então, que só aquele pão podia saciá-lo, e que não tendo-o não poderia satisfazer a sua fome, sofreria uma pena intolerável. Pois quanto mais se aproximasse daquele pão, sem podê-lo ver, tanto mais cresceria nele o desejo natural de comê-lo, o qual,  por seu instinto, somente  quer aquele pão que consiste todo o seu desejo.

Se o homem que digo estivesse certo de que já nunca mais tornaria a ver o pão, naquele mesmo momento encontraria o seu inferno: como as almas condenadas, as quais são privadas de toda esperança de jamais ver o pão de Deus, seu salvador verdadeiro.

Mas as almas do purgatório têm a esperança de ver o pão e sanar-se dele. Por isso só padecerão fome e sofrerão esta pena todo o tempo que estiverem sem poder saciar-se daquele pão de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e salvador, amor nosso.

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

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