Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 4

Purgatório

 

O inferno e o purgatório nos revelam a admirável Sabedoria de Deus.

Assim como o espírito limpo e purificado não encontra lugar a não ser em Deus para o seu repouso, por haver sido criado para esse fim, assim a alma em pecado não encontra outro lugar adequado para ela que não seja o inferno, que para este foi ordenado por Deus.

Por isso, naquele mesmo instante em que o espírito se separa do corpo, a alma vai só ao lugar, que lhe foi ordenado, sem que ninguém a guie, exceto aquela alma que conserve a natureza do pecado porque saiu do corpo em estado mortal.

Mas se a alma condenada não encontrasse no momento da morte aquela ordenação procedente da justiça de Deus, cairia em um inferno muito pior que aquele em que caiu, porque estaria fora daquela ordenação divina, a qual participa da divina misericórdia, que não lhe dá tanta pena quanto merece.

Por isso, não encontrando a alma lugar mais conveniente para ela, nem em outro que se encontra com menos dano que aquele que por ordenação divina se lhe oferece, se lança dentro, como encontrando nele seu lugar próprio.

Assim também, em relação ao purgatório, diremos que a alma, separada do corpo, ao não se encontrar com aquela pureza e nitidez com que foi criada e vendo em si o impedimento da culpa, que só pode ser quitada por meio do purgatório, rapidamente se lança nele de boa vontade.

Porque, se a alma não encontrasse aquela ordenação prévia para tirá-la de seu embaraço, naquele mesmo momento se geraria para ela um inferno pior que o purgatório: ao ver que não podia alcançar, pelo impedimento da culpa, seu fim divino; o qual importa tanto, que, em sua comparação, o purgatório não vale nada, ainda que, como foi dito, seja tão semelhante ao inferno; mas em comparação com ele é quase nada.

 

Necessidade do purgatório.

Mas ainda quero dizer-lhes: é o que vejo, que pelo que se refere a Deus, o purgatório n]ao tem nem sequer portas: tal que o que quer nele entrar, entra; porque Deus é todo misericórdia e tem sempre para nós os braços abertos para receber-nos em sua glória.

Mas também vejo que aquela essência divina é de tanta pureza e nitidez (e muito mais que se possa imaginar) que a uma mínima falta, se lançaria voluntariamente em mil infernos antes de poder encontrar-se na presença da Majestade Divina com aquela mancha.

E por isso a alma, vivendo o purgatório ordenado para purificar-lhe daquelas manchas, se lança dentro; e lhe parece encontrar nele uma grande misericórdia, pois vai poder tirar de si aquele impedimento.

 

Natureza terrível do purgatório.

A importância do purgatório não pode expressar a língua nem conceber a mente; pois ao mesmo tempo que se vê nele tanta pena como no inferno, se vê também que a alma, quando somente sente em si um mínimo traço de imperfeição, o recebe como misericórdia, como foi dito: não fazendo estimação do seu dano em comparação com aquela mancha impeditiva de seu amor.

E parece-me ver que a pena das almas do purgatório é maior, por ter visto nela mesma alguma coisa desagradável a Deus e por haver visto que esta coisa a fizeram voluntariamente contra tanta bondade; pois nenhuma outra pena pena sentem tanto como esta no purgatório. E é assim, porque estando em graça, veem a verdade e a importância do impedimento que não a deixam aproximar-se de Deus.

Todas essas coisas que digo são incomparáveis com aquilo outro que está gravado em meu pensamento (quanto foi podido compreender nesta vida); e são coisas tão difíceis estas, que a seu lado, toda outra visão ou palavra, ou sentimento ou imaginação, toda outra justiça, toda outra verdade, me parecem mentira e coisa de nada.

E ainda estou confusa por não saber encontrar palavras mais claras para dizê-los.

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

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