Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 6

    Tratado do Purgatório

 

Ardente desejo que têm as almas de transformar-se em Deus e sabedoria de Deus ao ocultar-lhe suas imperfeições

A alma foi criada com todas aquelas condições de bondade que lhe capacitam para alcançar a perfeição, vivendo é claro, como Deus teria ordenado, sem contaminar-se de mancha de pecado algum.

Mas, ao contaminar-se pelo pecado original, perdeu a alma seus dons e suas graças, e ficando morta, não pode, então, ressuscitar senão com a vontade de Deus. E quando foi ressuscitada pelo Batismo, fica, porém, aquela má inclinação primeira que a empurra e conduz (se ela não lhe faz resistência) ao pecado atual, pelo qual se morre de novo.

Deus, porém, volta, todavia, a ressuscitá-la por meio de outra graça especial, porque a alma ficou tão entorpecida que para para voltá-la de novo a seu primeiro estado, tal como foi criada por Deus, sem as quais nunca poderia retornar.

Quando a alma se encontra em caminho de volta a aquele seu primeiro estado, tanto é o ardor que sente por dever-se transformar em Deus, que este é, então, seu purgatório.

E não porque ela possa ver o purgatório como tal purgatório, senão porque aquele instinto de subir para Deus sentindo-se impedida para ele, é o que se lhe faz, deste modo, o purgatório.

Mas é este último ato de amor que se opera, então, sem o homem: porque se encontra na alma tantas imperfeições ocultas, que se as visse, viveria a alma desesperada; e assim, neste último estado, se vão consumindo todas elas misteriosamente.

Somente quando foram todas consumidas, Deus o mostra à alma; para que ela veja aquela operação divina que lhe causou o fogo de amor consumindo todas as imperfeições que havia sido consumida nela.

 

Alegria e dor das almas purgantes

Deveis saber que todo aquele que julga o homem de si mesmo como perfeição, diante de Deus é defeito. por isso todo aquele que faz do homem uma aparência de perfeição, tanto no que vê, como no que sente, ou no que entende, ou no que quer, e até no que recorda, se não reconhece que é de Deus e não todo seu, com todo ele se contamina e entorpece.

Porque devendo ser todas aquelas obras perfeitas, é necessário que para sê-lo se operem em nós e sem nós, ou seja, sem nós como agentes principais delas; assim, deste modo, é necessário que a obra de Deus se faça por Deus sem que o homem a faça primeiro.

Estas são aquelas obras que Deus faz na última atuação do amor puro e nítido; porque as faz por si só sem mérito nenhum nosso. E essas obras são tão penetrantes e inflamam tanto a alma, que o corpo, que está ao redor, parece consumir-se de tal modo como se estivesse dentro de um grande fogo: porque este fogo não lhe abandonará, então, jamais até a morte.

É verdade que o amor de Deus assim refletido na alma (segundo o vejo) dá a alma um tão grande contentamento que não se pode sequer expressar; mas esta alegria das almas que estão no purgatório não lhes diminui nem uma centelha sequer da pena.

Porque é aquele mesmo impedimento do amor o que lhe faz maior a sua pena; e tanto esta pena se vai aumentando nelas, conforme é maior a perfeição de amor de que Deus faz capaz.

E assim, as almas do purgatório têm tão grande alegria como grandíssima pena, que uma coisa não impede a outra.

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

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