Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 7

Tratado do Purgatório

 

As almas purgantes não podem merecer.

De como está disposta a sua vontade a respeito das obras que se oferecem neste mundo para seu sufrágio.

Se as almas do purgatório pudessem purgar-se por contrição, em um só instante pagariam toda a sua dívida; porque um fogoso ímpeto de contrição as arrebataria por inteiro. E sucederia isto assim, por aquele claro entendimento que têm, então, as almas da importância do que lhes impede e estorva, não deixando-as alcançar seu fim e o amor de Deus.

Mas podeis estar certos que do pagamento que têm de dar aquelas almas, nem o mais mínimo se perdoa; porque assim foi estabelecido pela Justiça Divina. E isto, enquanto se refere a Deus; pois, pelo que se refere às almas , estas já não têm afeição própria e não podem ver outra coisa senão o que Deus quer; nem de outro modo podem querer, senão como foi assim estabelecido.

E se alguma esmola se faz por elas neste mundo que diminua o tempo de sua pena, elas não podem voltar-se com afeto para olhá-la se não é tanto que aquela justíssima balança da vontade divina se pague com ele como a sua infinita vontade se faça: pois em tudo isto não podem fazer outra coisa que deixar a Deus fazer o que Ele queira.

Porque se pudessem as almas voltar-se a olhar para aquelas esmolas que se lhes fazem, saindo-se desta divina vontade, seria este ato próprio seu, que as apartaria imediatamente da vista divina, o qual seria para elas tanto quanto um inferno.

Por isso estão essas almas aquietadas, imóveis, entregues a tudo o que Deus lhe dá, tanto de prazer e contentamento como de pena, pois nunca mais podem voltar-se para si mesmas, já que de tal modo estão transformadas intimamente na vontade de Deus que só se contentam em todo com aquela ordenação santíssima sua.

 

As almas querem a sua perfeita purificação.

Se alguma alma pudesse apresentar-se à visão de Deus conservando nela, porém, algo, por muito pouco que fosse, de impureza que não houvesse purificado, se sentiria terrivelmente injuriada com isto, padecendo, então, por isso uma paixão e pena muito maior que a de dez purgatórios juntos.

Porque aquela pura bondade e suma justiça não poderia suportá-la em sua presença, o que é inconsciência impossível por parte de Deus.

Pois aquela alma que visse que Deus não está plenamente satisfeito com ela, porém, ainda que a faltasse um só abrir e fechar de olhos de purificação, lhe seria isto tão intolerável que para arrancar-se de si aquela miséria, se lançaria de boa vontade em mil infernos, se pudesse, antes que sentir-se diante da presença divina não purificada de tudo.

 

Exortações e reprimendas aos vivos.

E assim, alma bem-aventurada, vendo a essa luz divina todas essas coisas aqui ditas, digo:

Tenho vontade de gritar, me dá vontade de lançar um grito tão forte que assuste com ele todos os homens que andam sobre a terra para dizer-lhes: Oh! Miseráveis! Porque os deixais levar por este mundo, desprezando aquela importante necessidade em que os encontrareis ao ponto de chegar a hora da morte sem que haja tomado para isto previsão alguma?

Todos estais sob a esperança da misericórdia de Deus, a qual dizeis que é tão grandíssima; mas não vês que, precisamente por sê-lo tanto, por ser tanta bondade de Deus, se levantará contra vós no juízo, já que haveis vivido contra a vontade de um Senhor tão bom?

Pois por esta bondade é porque deverias obrigar-te a cumprir totalmente a Sua vontade, não abandonando, pelo contrário, a esperança enquanto fazes o mal: porque sua justiça não pode faltar-nos tampouco, sendo necessário que de algum modo se satisfaça plenamente.

Não te confies mais dizendo: eu me confessarei e obterei logo a indulgência plenária; e estarei, então, purificado de todos os meus pecados e assim poderei salvar-me.

Pensa que aquela confissão e contrição que dizes, a qual é necessária para ganhar uma indulgência plenária, é coisa tão difícil de obter que se soubesse estremeceria de medo; pois estaria muito mais seguro de não tê-la que de podê-la conseguir.

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

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